quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Cap. 6: Fim do FDS

Depois do almoço, fomos todos descansar. Sabe aquele cansaço de sol? Então, estávamos todos mortos. Dormimos o resto da tarde. No entanto, minha vó fez questão de nos acordar assim que anoiteceu. Estávamos tão podres que ninguém quis descer, todos viramos a cara para o travesseiro e continuamos dormindo. Minha vó era insistente, mas sabia que não adianta dar murro em ponta de faca e desistiu de fazer os hóspedes se levantaram após as 5 tentativas fracassadas.
No final, nossos estômagos sentiram a fome bater. Nós três invertemos completamente os horários da casa. Levantamos enquanto todos já estavam praticamente dormindo. Mas para não dizer que éramos mal-educados, nós mesmos fomos à cozinha. Claro que sobrou pra mim, já que Pierre não sabe nem ferver uma água e Ni, bem, ela tenta, mas se atrapalha um pouco. Ainda mais, com Pierre na cozinha a distraindo. Resumindo, o trabalho pesado de cozinha ficou pra mim.
Ficamos batendo papo na cozinha. Agradeço pelos dois terem parado de tentar me ajudar, pois eu já estava desarrumando tudo e eles não estavam, digamos, ajudando de qualquer jeito. Zefa ficaria possessa só pelo fato de ter mais alguém mexendo em sua cozinha que não seja ela. Eu teria que dar boas desculpas.
Finalmente minha macarronada estava pronta.
-É praticamente uma mama italiana, Patty. -disse Pierre
-Bem, eu tenho que treinar. Afinal, se ganharmos aquele concurso, vou ter que me virar na Itália.
-Vocês vão para a Itália?
-Só se nós ganharmos.- respondeu prontamente Ni.
-Marrié não te contou?- perguntei em um tom jocoso.
-Até parece que aquela.. francesa metida me contava alguma coisa da vida dela.
-Aprendeu rápido, hein? -assim que falei isso todos caíram no riso.
-Digamos que tenho boas professoras.- ele dá um selinho em Ni e uma piscadela pra mim.
Tá vendo? Por isso que eu gosto tanto do Pierre. Ele é um grande amigo. Ok, foi um estúpido enquanto namorava Marrié. Mas e daí? Todos que chegam perto daquela francesa falsificada agem de uma maneira errada.
Terminado o 'jantar' ficamos vendo TV a noite toda. Na verdade a TV ficou ligada a noite toda, porque na verdade, estávamos fazendo jogos e tudo mais sem prestar atenção ao que o cara da tela falava. A última coisa que me lembro era que estávamos jogando UNO e eu estava ganhando, o que venho depois disso era nublado. Acordo com os gritos da minha vó:
-PATRÍCIA!! MAS QUE BAGUNÇA É ESSA NA MINHA SALA! VOCÊS DORMIRAM AQUI? MEU DEUS, DAÍ-ME FORÇAS!
-Desculpa, vó. Nós não estávamos com sono depois de comer e resolvemos ficar um tempinho aqui na sala. Mas, pelo visto, acabamos dormindo.
-Patrícia, você não é mais uma menininha.
-Eu sei, vó. Fique tranqüila pois arrumaremos tudo, está bem?
-Acho bom.
-mas que barulheira é essa, nesta hora da manha?- meu avô desce as escadas e ainda parecia vestir a mesma calça caqui do dia anterior, dessa vez sem suspensórios.
-Desculpe, vô. Uma pequena bagunça na sua sala. Mas já vamos ajeitar tudo.
-Querida, você sabe que eu não me importo com isso. Sua vó aqui é que fica maluquinha da silva quando alguém tira as coisas dela fora do lugar- ele diz um pouco sussurrado essa última parte, mas parece que não adiantou, vovó ouviu do mesmo jeito.
-Maluca nada. Sou apenas organizada! Organizada, meu velho! Nossa toda essa confusão quase me fez esquecer o recado. pat´ricia, seus pais desistiram de ir. Parece que ficaram cansados demais e decidiram ficar em casa mesmo.
-É.. bem que eu achei estranho eles não terem aparecido até essa hora. -mentira, tinha esquecido deles completamente. Todo esse negócio de plano infalível de cupido me deixou com a cabeça muito ocupada.
Arrumamos tudo e passamos o resto da tarde conversando. A noite cai e a hora de ir embora também. O final de semana estava sendo ótimo, exceto pela parte de ficar segurando vela. Eu já tinha previsto que isso iria acontecer, mas é sempre chato mesmo sendo dois amigos tão queridos. Despedímo-nos de vó Virgínia e vô Camilo. Pegamos também alguns quitutes da Zefa e seguimos viagem. Ni tinha decidido voltar comigo, não que Pierre não tivesse insistido, ela achou melhor e mais fácil, não teria a necessidade de explicar aos pais dela que sobre Pierre ser amigo meu e que haviam se conhecido lá e blábláblá ...
A volta foi tão catastrófica aos ouvidos quanto a ida. Cantamos bastante em voz alta e com direito a todos os agudos e “uuuhhh yeeahhh” que as músicas pediam. Chegamos praticamente roucas ao Rio. Deixei Ni na casa dela e enquanto eu descarregava todas as suas bagagens pudemos conversar um pouco. Era incrível como realmente nó não tivemos tempo de bater um boom papo:
-Obrigada, Patty.
-Nada. Mas é claro que te deixaria em casa era o mínimo que podia fazer..
-Não falo da carona até em casa. Isso também, na verdade, foi bem difícil carregar isso tudo enquanto eu ia pra sua casa no dia da ida ao sítio. - eu não tinha parado pra pensar como ela tinha ido pra minha casa nem como ela havia carregado tanta bagagem- Eu estou agradecendo pelo Pierre. Ele sim é um presente e tanto.
-Como assim?-me fingi de desentendida.
-Não faça essa cara de santa, porque eu sei que você não é.- usei meus dotes de estrela do teatro e fiz uma cara de magoada- você achou realmente que nós não sacamos? Desculpa, mas se depender disso vai demorar muito pra você ganhar o Oscar.
-Ahh.. Fui tão óbvia assim?- ela afirma com a cabeça- Pierre e eu já tivemos essa conversa na cachoeira. Ele também agradeceu a mim. Mas pensei que você não fosse desconfiar de nada.
-Meu Deus! Eu não sou tão burra assim! Posso me distrair em algumas coisas, mas eu tenho uma inteligência que você bem imagina!-Hahahaha Eu sei, não digo que você é burra. Você é inteligente demais, se você quer saber. Caso contrário eu já teria desistido de fazer o concurso com você. Eu só, realmente, achei que você fosse... distraída.- nos abraçamos e senti que ela estava verdadeiramente grata pelo empurrãozinho.
-Bem, tchau Patty. Adorei o final de semana. Mas amanhã temos muito o que fazer. Temos mais essa semana pra resolver tudo! O desfile é daqui a 7 dias! Ai que medo! Hahahahah
-Noossaaa! Verdade. Vamos logo então para descansar o cérebro, ele trabalhará muito essa semana.- eu cutuco a cabeça com o indicador.
-Até amanhã!
-Até amanhã, Ni.
Ela entra e volto pro carro. Vou pra minha casa, essas duas horas dirigindo não parecem nada, mas como cansa as costas! Uau, que frase de velha! Por falar em velha, eu queria saber o real motivo dos meus pais não terem ido. Eles prometeram a vovó e eles geralmente não descumprem promessas feitas aos mais velhos. Dizem que algo do tipo, não merecem ser desapontados.
Chego em casa e o clima não parece nada bem. Vejo a televisão ligada, mas sem ninguém na sala assistindo -a. Jogo as malas na entrada e vou procurar por alguém. Nada na cozinha. Nada no banheiro social. Deparo-me com a porta do quarto dos meus pais fechada. Eu dou duas batidinhas e ninguém responde. Resolvo girar a maçaneta e testar pra vê se está aberta. Sim estava. Fui abrindo lentamente. Já estava noite mas as luzes do cômodo estavam apagadas. Vejo que alguém estava estirado na cama. Era minha mãe. Fui me aproximando e liguei o abajur, torpecei em alguns lenços de papel que estavam no chão. Será que ela estava doente, gripada ou tinha chorado horrores? Dou um beijo na testa dela que não abre os olhos, parece estar num sono muito profundo. Olho pra cabeceira e vejo o calmante. Ela dormiria por muito mais tempo. Decidi sair e fechar porta.
Por todo o apartamento procurei sinal de papai e nada. Alguma coisa muito grave aconteceu aqui e eu não fui avisada. Vó Virgínia também não deu nenhuma pista. Peguei o telefone e disquei para o celular de papai, depois de alguns toques a voz grave de meu pai fala na outra linha:
-Alô?!
-Pai?
-Patrícia?
-É.. Pai, o que está acontecendo? Onde você está?
-Calma querida. Uma coisa de cada vez, está bem? Sua mãe não está em casa?
-Ela está, mas parece que tomou um calmante e não vai acordar tão cedo. O que está acontecendo?- eu repito a pergunta com uma voz um tom mais alto do que o anterior.
-Eu e sua mãe vamos nos separar.- ele fala curto e grosso.
-Vocês vão o que? Separar? Como assim? De repente? De onde surgiu essa idéia maluca?
-Eu, sinceramente, não queria discutir isso por telefone, querida.
-Então a gente se encontra no restaurante daqui a 10 minutos. Vamos TER que esclarecer TUDO, ouviu bem?
-Claro. 10 minutos? Estarei esperando por você lá.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Cap. 5: Cupid

Fazia uma linda tarde. O sol continuava brilhando a toda, sem nenhuma nuvem que a encobrisse, igual hoje cedo. Consegui arrastar meus convidados pra cachoeira. Apesar da Ni quase ter dado um ataque, pois vivia reclamando de estar acima do peso. O que é uma neurose pura, ela é magra e cisma em fazer uns regimes de vez em quando. Pierre estava lá mais pela aventura, queria fazer rapel, mas foi derrotado por um turbilhão de vozes dizendo: “ Você é maluco ou o quê? Quer morrer? Aqui não é bem equipado, não tem estrutura pra esse tipo de coisa! DESISTA!!”. Ele realmente é um riquinho maluco.
Segui pra cachoeira pela trilha que tinha no sítio. Pierre carregava as mochilas,sim mochilas, pois apesar de ser perto, Ni insistiu que levássemos algumas coisas que segundo ela seriam essenciais em caso de emergência, vá entender? Ela definitivamente não nasceu pra vida no campo.
A trilha não era longa, mas também não era rápida. Resolvi só começar a puxar a conversa. Deu certo porque a partir daí Pierre e Ni não pararam mais. Mantive-me calada, o percurso todo. Se não fosse a minha intenção juntar os dois, eu acharia aquela segurada de vela um saco, mas valia a pena.
Chegamos na cachoeira. A água brilhava com os raios dos sol e era tão limpa que era possível ver o fundo perto da borda. Estava deliciosamente fria. Nada que o calor do dia não esquentasse depois. Fui a primeira a entrar, já que tinha sido a primeira a chegar. Tinha deixado os dois mais atrás pelo caminho (chega de ser castiçal!). A água gélida ao atingir meus pés me arrepiou. Quem disse que eu me importava? Dizem que o melhor é você molhar os pulsos, depois o pescoço e por fim entrar direto. Eu acho que assim é pior, por isso caio logo de cabeça. Foi o que eu fiz, na primeira sensação de arrepio eu me joguei nas águas transparentes. No fundo da cachoeira pude sentir minha pele congelando. Hum.. acho que está na hora de voltar a superfície.
Quando coloco a cabeça pra fora d'água para pegar mais ar, vejo que o casalzinho já tinha chegado e pareciam se divertir. Pelo menos não enxergava a tristeza nos olhos de Pierre que nem naquele dia que ele me 'reecontrou', olhos de quem estava sofrendo. Pude ver perfeitamente o brilho neles, olhos apaixonados substituíram os anteriores. Tenho a ligeira impressão que não deram por minha falta. Who cares? Meu plano fluiu perfeitamente, será que já posso me considerar uma cupido profissional?
Resolvi ficar nadando pela cachoeira. Não incomodaria eles por nada. Eles entraram rapidamente, mas não ficaram muito tempo. Ni estava realmente ficando roxa, eu seriamente me preocupei que ela tivesse uma hipotermia. Nada que um sol e uma toalha não resolvessem, e também os braços grandes de Pierre. Sim, Pierre abraçou Ni, com uma desculpa de que era pra esquentar mais rápido. Nesse momento eu percebi que poderia acontecer mais alguma coisa e minha presença bem ou mal, estava encabulando ambos. Saí com a desculpa de que precisava fazer xixi e usar o matinho. Eles nem ligaram pra desculpa, mas acho que entenderam o motivo da minha saída de fininho porque ficaram encabulados.
Não deu outra, foi só eu sair e pude ver escondida atrás de uma árvore que os dois se entenderam. Pierre deu um beijo em Ni, e ela não pareceu em nenhum momento não querer que aquilo acontecesse. Elas ficavam tão bem juntos. Era fofo. Com certeza ni faria um bem danado pro meu amigo. Ele esqueceria de vez a Marrié e me deveria uma pelo resto da vida dele. Algo me diz que o futuro dos dois é promissor. Formaram uma bela família. Mas, pera. Já to sonhando demais, mais do que eles mesmos talvez. No entanto, não posso negar: eles foram feitos um pro outro= fato.
Ficar escondida já estava me incomodando. Até porque, tinha umas formigas que pareciam estar famintas e começavam a me picar. Tive que ir direto pra água.
-FORMIGAAAASSS!!! -saí gritando até a água.
Os dois pareceram tomar um susto e fizeram cara de como se estivessem pensado “ fomos pegos no flagra!”, mas a educação deles foi maior:
-Você está bem, Patty?- perguntou Ni.
-Hum.. nada que uma pomadinha não resolva.- não queria ter interrompido dessa maneira.- Mas, hein... desculpa ter.. interrompido alguma coisa....
Depois dessa minha interrupção deprimente fizemos um pique-nique. Tenho que louvar a idéia de Ni de ter levado as coisas essenciais naquelas mochilas. O lanche estava delicioso, mas já estava na hora de voltar pra casa, passava da hora do almoço e vovó deve estar furiosa por não termo aparecido pro almoço na hora certa. Enquanto Ni guardava as últimas coisas na mochila antes de partirmos, Pierre aproveitou o momento de distração de minha amiga e fingiu me ajudar a pegar algum lixo:
-Obrigado, Patty.
-Por que você me agradece?- tentei fazer minha melhor cara de santa.
-Ora, Patrícia, eu sei que você armou alguma coisa. Na verdade, eu suspeitava de algo desde que saímos da casa, eu só não sabia exatamente o que era.
-Eu? Não fiz nada.
-Pare com isso, garota. Eu te conheço desde pirralho e essa cara de santa que você está tentando fazer eu conheço de outros carnavais. Esqueceu quem ajudava a encobrir suas mentirinhas, ham?
-Tá bom. Mas eu não fiz mais do que minha obrigação. Eu tive um feeling de que vocês dois seriam bons um pro outro. Não me pergunte como, foi...intuição. E pelo visto..- eu olho pra Ni distraída como na hora do café- eu acertei na mosca!
-Por isso eu vim te agradecer, sua boba.
-O que eu quero dizer é que você não precisa me agradecer. Vocês são meus melhores amigos. Eu queria ver os dois bem, com pessoas legais. Eu só uni o útil ao agradável.
-Mas eu sei que eu não merecia. Digo, depois de eu não ter te ouvido quanto a Marrié...- eu interrompo nesse instante.
-Justamente por causa daquela chata eu escolhi Anita. Ela é mil vezes melhor do que aquela loira falsificada e fará você esquecê-la em segundos.
-Esquecer de quem mesmo?- nós rimos e ainda dou um soquinho no braço dele.
-Vamos que vovó deve estar uma fera.
Dessa vez eu me enganei. Vovó estava sentada na varanda fazendo tricô em sua cadeira de balanço ao lado de vovô que também estava sentado na cadeira dele, só que ele estava cochilando com o jornal na mão. Ela nos viu chegando no caminho de terra pelo qual nós saímos mais cedo naquele dia:
-Olá crianças! Como estava a cachoeira? Pelo céu azul anil, eu diria que a água estava um gelo!
-Eu que o diga Dona Virgínia!- falou Ni
-É. ela ficou até roxa!-disse Pierre como se fosse uma criancinha contando seu dia na escola.
-Sério? Mas como você está agora? Quer que eu mande preparar um banho quente?
-Não, não. Já estou bem. Já esquentei. Obrigada.
-vocês devem estar morrendo de fome, não mesmo? Saíram um pouco antes do almoço. Estão com o estômago vazio?
-Não, vó. A Anita levou uns docinhos. Mas nada que substitua um bom prato de arroz e feijão.
-Então podem entrar e ir lá pra cozinha. Peçam à Zefa para esquentar a comida. Sorte de vocês que eu fiz um pouco mais do que o de sempre.
-Obrigado- dissemos todos.

sábado, 18 de julho de 2009

Cap.4: Um descanso merecido

Olho no relógio, ainda tenho meia hora antes de sair. Mas tava tão divertido que eu queria ficar, faz séculos que eu não conversava com Pierre. Isso me lembrava os tempos de infância e pré-adolescência, dos dias que ficávamos horas conversando sobre assuntos nada a ver como o episódio do dia anterior de Cavaleiro do Zodíaco, ou as evoluções possíveis de Eve de Pokémon.
Tive realmente que me despedir, era semana de teste de habilidade prática. Ou seja, corte, costura e croquis devem ser apresentados juntamente com sua criação em um manequim. Já estava tudo pronto, mas não queria chegar atrasada, sabe com é, pega muito mal num dia tão importante como hoje que valeria muito e eu não poderia ser descontada em nada.
Ao sair eu me dei conta que um grupinho de meninas sentadas perto da porta não parava de olhar para Pierre. Não as culpo, Pierre era bonito. A maioria baba por um menino loiro com olhos azuis, alto, e todo arrumadinho. Às vezes me perguntava se eu tinha problemas, mas eu nunca tive nem uma quedinha por ele, vai ver porque nós éramos como irmãos desde pequenos e nunca tive outro sentimento por ele que não fosse amizade de irmãos. Não era cega, porém. Pierre era bem apeçoado, eu só tinha um ciuminho bobo em relação à namorada do escalão da Marrié. Eu até hoje não entendo a necessidade masculina de querer sempre uma mulher que não presta.
A lanchonete era perto da faculdade e consegui até chegar um pouco mais cedo. Foi bom, assim eu revisava mais um pouco. Revi as falas por algum tempo, entra Ni correndo na sala de aula:
-Babado!! Marrié tá toda nervosinha. Parece que ‘terminou com um otário que abria portas pra ela’ – Ni tentou imitar a voz irritante dela.
-Eu sei. O otário em questão era o Pierre, aquele meu amigo de infância de quem eu te falei. Me encontrei com ele ainda pouco na lanchonete aqui perto - A boca de Ni se abriu. O queixo desceu e ela não acreditava que eu tinha fofocas mais quentes que a dela.
-Ahh.. Pensei que seria uma novidade pra você ..- fez um muxoxo.
A aula começou. A ordem de apresentação ia ser por sorteio. Me apresentei mais pro meio, não fui a primeira nem a última, tudo correu bem. O dia também transcorreu tranquilamente. Com o término das aulas corri com Ni pra casa dela, deveríamos adiantar o máximo o trabalho pro concurso. A entrega seria daqui a quinze dias. Estava tudo dentro do prazo que havíamos estipulados a nós mesmas, mas não custava nada adiantar alguns dias.
Era impossível não falar sobre o término do namoro de Marrié e Pierre e eu e Ni poderíamos falar mal dela o quanto nós quiséssemos, ninguém poderia nos olhar torto nem nos linchar (não que alguém já tivesse tentado, mas era praticamente o que os puxa-sacos fariam um dia). Contei a conversa que eu tive com Pierre. Ni quase chorando dizendo de 1 em 1 minuto “Ahh.. Tadinho!”. Já tava me dando nos nervos, mas isso me deu uma idéia brilhante. Ni era solteira. Pierre virou solteiro. Humm.. por que não?
Cheguei em casa tarde, porém antes de dormir fiz um sacrifício por meus amigos (sacrifício porque eu estava morta e morrendo de vontade de dormir). Abri meu e-mail e escrevi uma nova mensagem para Pierre:
Pierre,
Adorei ter conversado com você hoje. Sentia falta dos nossos longos papos. Vamos fazer isso de novo? Que tal nesse final de semana? Vou visitar meus avós no sítio, tá afim de ir tbm? Me responda o mais breve possível! Bjos Patty.
Cliquei Send, agora era só esperar.
Uns dois dias depois, veio a resposta:
Oi Patty!
Nossa!! O sítio! Que saudades daquele lugar! Ainda lembro das aventuras que nós nos metíamos, a casa da árvore ainda existe?
Bem, acho que isso já revela minha resposta. Vou com certeza! Mas que horas é pra chegar lá? É pra levar alguma coisa?
Estou muito animado!
Até mais, Pierre.
Fase 1 do plano completa. Se tudo der certo vou formar o melhor casal de amigos que uma garota pode ter. O meu melhor amigo de infância e minha mais nova melhor amiga, juntos... humm. Espero não fazer nada de errado e estragar tudo. Estou cruzando os dedos.
Ni já tinha aceitado ir ao sítio no final de semana, tanto ela quanto eu precisávamos de um descanso. Havíamos trabalhado no projeto há dias. Não tínhamos feito nenhum tipo de folga, era trabalho duro 24 horas por dia. Não me arrependo, porém. Nós estávamos mais adiantadas do que os outros grupos. Notávamos isso quando ouvíamos as discussões de grupo nos corredores, eles realmente corriam contra o tempo. Enquanto nós só estávamos esperando a entrega dos manequins para a exposição de algumas peças e a resposta de uma agência de modelos que ficou de enviar no mínimo uma de suas contratadas pra desfilar pra gente. E tudo estava dentro do nosso cronograma.
Chega o fim de semana.
Dia mais perfeito não poderia ser. Como diria Maysa: “Dia de luz Festa de sol Um barquinho a deslizar No macio azul do mar” (...). Só que sem a parte do barquinho,é justamente o oposto, o campo ao invés da praia. O dia era lindo, sem uma nuvem sequer no céu, daria um ótimo dia de cachoeira.
Estava tudo pronto. Todas as malas arrumadas. Ni passaria aqui em casa cedinho, meus pais só iriam mais tarde (eles ainda trabalhariam naquele sábado pela manhã). Pierre também iria sozinho, disse que tinha uns assuntos pra resolver antes de se ausentar, alguma coisa com a empresa, papeladas mal resolvidas.
Ni era realmente pontual, chegou cedo. Peguei o carro de minha mãe, que ela gentilmente havia cedido (ela pegou uma carona com papai para sair hoje) e botamos o pé na estrada. O sítio de meus avós ficava umas duas horas da região metropolitana. A viagem foi regada de muitas músicas de estrada, som no último volume. Ainda bem que estávamos sozinhas, cantamos até nossas gargantas ficaram secas, eu não me divertira tanto se alguém fosse presenciar essa momento que eu classificaria uma sessão de tortura para qualquer outro acompanhante.
Fiz o trajeto um pouco mais rápido do que o de costume e chegamos à porteira do sítio em 1hora e 30 min. Nada parecia ter mudado. A casa permanecia com as mesmas cores desde que eu me dava por gente. Minha vó era muito organizada, odiava quando o sítio ficava com aparência de velho. Constantemente mandava renovar a pintura de todas as paredes, dar uma geral nas estruturas de madeira e não deixa nenhum tipo de bicho se aproximar do sótão e dos porão. E meu avô só ficava sossegado no canto dele, sentado na cadeira de balanço vendo a vida passar, mentira, ele era o que mais cuidava dos animais, chegava até a levar o banquinho pro estábulo para conversar com os cavalos. Quando eu tinha uns 6 anos costumava ficar deitada no feno enquanto meu avô dialogava com os animais.
Abri a porteira e estacionei próximo a casa. Subimos as escadinha da varanda e dali já podíamos senti o cheiro de bolo assando e de café sendo passado fresquinho. Nossos estômagos roncaram alto, seguramos o riso porque alguém de lá de dentro estava vindo e brigando com alguém:
-Como assim chegou alguém que você não sabe quem é? Como você deixou essas pessoas entrarem, Seu Geraldo?! Até parece que...- minha avó aparece irritada na porta, pára abruptamente ao dar de cara comigo.
- Oi vó!
-Patrícia!! Minha menina! Não sabia que chegaria a essa hora! Pensei que só viriam à tarde junto com seus pais...
-Não, eles tiveram que trabalhar. Decidi vir mais cedo com minha amiga, queria fazer ela conhecer toda a beleza desse lugar- eu abro os braços q dou um rodopio.
-Bem, deveria ter avisado disso. Eu não esperava sua amiga, fiquei sabendo do Piéeee, Pier...Pierrrríiiee, ..
-Pierre, vó.
- Ahh.. Que seja, quem mandou os pais desse menino colocarem um nome estrangeiro no rapaz com tantos nomes brasileiros bonitos?
Nossa conversa é interrompida pelo barulho de uma espingarda velha sendo destravada e com uma voz bem grossa, mas que já demonstrava idade:
-Cadê? Cadê os invasores, Virgínia? Pode falar que eu tô armado e não tenho medo de usar essa belezinha aqui...
-Calma vovô! Sou eu Patrícia. Eu e minha amiga, chegamos mais cedo so que vocês estavam esperando.
-Ahhh... Patrícia, minha filha!! Não dê mais sustos assim num velho coração...- e um velhinho de cabelos brancos, usando uma camisa xadrez, calças cáqui com suspensório e de botinas aparece na soleira da porta.
-Oii vô. –dou um beijinho em sua testa- Essa aqui é a Anita.
-Mas pode chamar de Ni..- ela se manifestou pela primeira vez e parecia achar graça pelo fato de meu avô estar segurando uma espingarda enferrujada.
-Bem vamos entrando, meninas. Sinta- se a vontade, Anita. Não falo nada pra você querida, você já é de casa.- vó Virgínia se dirigia a mim nesse momento, falando no seu tom mais bondoso.
-Obrigada Dona Virgínia.- disse Ni.
-Nada minha filha, agora só precisamos resolver aonde você irá dormir, como você foi esquecer de me avisar de sua amiga, Patrícia? Hum.. Já sei. Seu Geraldo, por favor, vá no porão e pegue aquela caminha de armar que está desmontada e monte-a no quarto de Patrícia.- ela se dirigia ao empregado que ainda parecia envergonhado pela pequena confusão que havia causado – Agora vamos ver... Zefa!! Zefaaa..!!
-Senhora?- uma mulher de cabelos negros presos por um lenço e alguns grampos, vestia um vestido florido e uma avental branco.
-Por favor, pegue lençóis de solteiro na cômoda do quarto de hóspedes.
-Mas eu já troquei o conjunto de lá, senhora.
-Não querida, esses serão para forrar a cama que será montada no quarto de Patrícia, para Anita- e vovó aponta para Ni, que estava parada no canto.
-Sim, senhora. – e a empregada sai de onde veio.
-Querem alguma coisa, minha filhas. Zefa acabou de fazer um bolo de milho e passar um café.
-Nós sentimos assim que chegamos, vó!
-Humm.... Que bom. Vamos pra cozinha então. Podem deixar suas malas aqui na sala que logo as colocarão no quarto.
-Vamos pega-las agora.
As milhares de malas de Ni foram tiradas primeiro, parecia que ela passaria um ano no lugar ao invés de uma semana. Eu tinha só duas, ela cinco.
-Ni, você vai se mudar pra cá, por um acaso? Cinco malas!
-Não, eu sou apenas prevenida pra todos os tipos de clima. E não são cinco, são quatro. Essa menor é de maquiagens e de cosméticos em geral.
Estávamos terminando o lanche quando Pierre chegou. Não teve nenhuma confusão como antes. Todos os empregados já estavam sobre avisados. O meu amigo loiro de olhos azuis e engomadinho adentra a cozinha depois de uma recepção calorosa de minha vó na sala. Ni estava distraída, misturava o açúcar na sua segunda xícara de café. Nem levantou os olhos pra ver o porquê de alguns murmurinhos. Estava, digamos, concentrada demais num café. Tive que tomar a iniciativa, senão meu plano ia por água abaixo?:
-Ni, esse é Pierre, meu melhor amigo desde os tempos de traquinagens.- ela finalmente levantou os olhos da mesa e se assustou com minha introdução repentina, quase entornando a xícara.
-Opss.. Ahhh.. Oi. Anita prazer. Desculpe, quase mancho sua roupa de café.
-Hahaha O que isso, não foi nada, percebi que estava distraída.- ela corou assim que ele abriu seu melhor sorriso.
Isso era um bom sinal. Eu só o via usando essa sua arma secreta quando tinha, hhumm, segundas intenções. E Ni, bom, ela parecia ter tido sua atenção mais perturbada com a chegada dele. Ela é muito envergonhada pra essse tipo de coisa. Ela tem muitas vontades, mas desiste da metade porque está envergonhada demais para pô-las em prática. Eu tentaria ser o melhor cupido de todos os tempos.